2007/08/31

Etapas.

Estava aki a reler um meu post anterior, e a pensar que não foquei dois aspectos importantes:
A vida de trabalhador (o post falava mais na realidade do estudante - que eu fui durante o processo de emigrar...) que é significamente diferente da de estudante, e a satisfação que cada pessoa tem quando olha Portugal como país no mundo.

A vida de trabalhador é a mais difícil de alterar. Seja por razões de emigração, de migração ou outra razão qualquer.
Qnt mais se avança nas etapas tidas como normais da vida (o trabalhar, encontrar alguém, casar, família) mais se fica contido nesse caminho. Não sempre por vontade própria, mas mais pelas circunstâncias da vida. É o facto que todos conhecemos: qnt mais se envelhece, menos hipóteses temos perante nós.
Ora, mas será que é o envelhecer que nos retira as hipóteses ou os passos que nos vão contendo num caminho cada vez menos variado (que um dia acaba com a morte de uma pessoa, a situação mais contida possível com zero hipóteses perante quem morre)?
Ambos. Envelhecer retira capacidades físicas e mentais a todos nós, e dar passos nas etapas da vida retira escolhas.
Cada vez que aceitamos uma etapa contrária ao que gostávamos que a nossa vida se tornasse, temos de aceitar em bons termos que estamos finalmente a dizer não a um possivel sonho nosso.

Tenho como exemplo imediato, amigos meus que gostavam de fazer o que eu estou a fazer, mas que não hesitaram formar família, casar, comprar casa, não ingressar na faculdade, etc...
Deram os passos daqueles que não partilham os sonhos que eles próprios um dia tiveram.
Mesmo qnd contrariaram algumas das escolhas que os levariam aos seus sonhos (e contrariaram pq quiseram), fizeram-no (e outros fazem-no neste preciso momento) convencidos que isso não estava a acontecer.
Outros queriam abrir o seu negócio ou tornarem-se engenheiros, negando imediatamente o percurso universitário que os levaria lá da maneira mais eficiente. Engenheiro também vem de engenho. É preciso ser-se engenhoso para não perder de vistas as escolhas certas.

Isto para chegar à conclusão que a vida e os seus caminhos são da responsabilidade do sonhador e navegador que cada um de nós é.
Os sonhos são para quem não só os sonha, mas insiste em torná-los realidade.
Eu não faço isso na perfeição, mas quem faz? ;)
Não ir atrás deles é que me inquieta. Vida é esta e só esta, e quero ser um velho satisfeito.

O outro ponto é a satisfação de olhar Portugal (afinal de contas este blog é sobre emigração, claro está.).
Como é que se olha Portugal e se lida com a muralha que o país é para a maioria dos sonhos de muita gente? Será mesmo que se vence tal muralha trepando, ou indo à volta?
Portugal, para mim sempre foi uma muralha aos meus sonhos. Uma muralha bem bonita por sinal. O meu país é bonito. Mas esta muralha que me impedia o sonho de ser rico, de não ver mais trânsito como parte do dia a dia, de ter um governo menos corrupto, tampas de esgoto no meio de todo o alcatrão que de tampas devia estar livre, e toda uma lista de coisas e coisinhas, importantes e insignificantes, sempre me pareceu estranha.
Esta muralha de muitos metros de altura, só tem alguns metros de largura.
O meu engenho foi simples: ir à volta, esquecer que Portugal é muralha, e ir à caça das próximas etapas que me interessem.
Cá estou, no Texas. Sem trânsito, sem tampas de esgoto nas estradas, de papelada tratada, emigração bem encaminhada, a olhar a hipótese de ser rico (rico, satisfeito, não rico tetra bilionário), de escolher, de saber que agora a estrada é mais larga e me contém menos.

Os passos que dou agora parecem mais leves. Não me contêm tanto, não me assustam tanto.
Sinto-me mais livre, menos frustrado, tenho menos problemas de pele (lol), e as nuvens do destino estão a ficar mais finas a cada dia.
Portugal não tem de ser a muralha de cada um. A muralha que Portugal é, é estranha, não é só feita de tijolos mas também de pessoas, de mentalidades obsoletas. Os portugueses não têm todos de ir à volta da muralha (eu gosto de chamar a isso os atalhos dos audazes que a sorte protege). Podemos trepar a muralha e retirar tijolos lá de cima para os que nos seguem mais a baixo.
Dá trabalho, é frustrante, é difícil, mas é possível para quem goste da muralha. Façam disso um sonho então, para que essa trepadela toda seja o vosso sonho, e não o atalho que os levará ao outro lado da muralha e ou talvez a outra muralha diferente... Pena que ainda existam pessoas que atiram tijolos para cima da muralha, em vez de cá para baixo... ;)

Sem comentários: